Os filmes musicais de ficção ocupam um lugar importante na cinematografia brasileira, especialmente durante as três primeiras décadas do cinema sonoro, mas mesmo antes e depois desse período. Falando do sucesso que faziam os famosos “filmes cantantes”, nos quais cantores e cantoras, situados atrás da tela, dublavam ao vivo performances filmadas, Tinhorão (1972) nos diz que “as relações entre o cinema e a música popular, no Brasil, começaram com os primeiros filmes produzidos no Rio de Janeiro, logo no início do século”. (Ver também CARVALHO, 2009 e COSTA, 2006). Sempre reconhecido como o primeiro grande sucesso do cinema sonoro brasileiro (COSTA, 2006), o filme Coisas nossas (Walace Downey, 1931) é apontado por diversos autores (TINHORÃO, 1972; GONZAGA e GOMES, 1966) também como o primeiro filme musical brasileiro. Na esteira do sucesso de Coisas nossas vieram os “musicarnavalescos” (RAMOS e HEFFNER, 2000, 130) da Cinédia e, mais tarde, as comédias musicais da Atlântida, uma das vertentes dominantes da comédia popular brasileira que conhecemos como “Chanchada”.

Com o fim da era das chanchadas, em meados dos anos de 1960, o gênero musical passa a ser produzido de modo mais rarefeito e adquire novas e distintas feições. Surgem filmes protagonizados por artistas ligados ao fenômeno da Jovem Guarda, os “ídolos da juventude” da época, muitas vezes com o nome do cantor ou da cantora no título do filme. Em 1967, Renato Aragão protagoniza Adorável Trapalhão (J. B. Tanko) dando início ao veio destinado ao público infantil que produziu constantes e significativos sucessos de bilheteria nas décadas seguintes, segmento que viria a ser explorado também, a partir dos anos 1980, pela apresentadora Xuxa.

Ainda na década de 1960, são lançados alguns musicais com temática rural, como os filmes produzidos e estrelados pelo cantor e compositor Teixeirinha, e chega às telas uma quantidade importante de musicais realizados por diretores ligados ao contexto que Ismail Xavier (2006) chamou de Cinema Brasileiro Moderno, como É Simonal (Domingos de Oliveira, 1970); Quando o carnaval chegar (Carlos Diegues, 1972); A noite do espantalho (Sergio Ricardo, 1974); Morte e Vida Severina (Zelito Viana, 1977).

Nos anos de 1980, filmes como Cabaret Mineiro (Carlos Alberto Prates Correia, 1980), Tabu (Júlio Bressane, 1982), A estrada da vida (Nélson Pereira dos Santos, 1983), Ópera do malandro (Ruy Guerra, 1986) são provas de que o musical de ficção continuou a ser explorado no âmbito de uma cinematografia com ambição artística e voltada para o público adulto.

Considerando um recorte que vai da chamada “Retomada” até o momento em que este texto introdutório coloca seu ponto final, é preciso festejar a chegada ao campo de dois longas de animação: O grilo feliz (Walbercy Ribas, 2001) e O grilo feliz e os insetos gigantes (2009), ambos musicais com temática ambientalista de Walbercy Ribas e Rafael Ribas.

Além disso, três tendências merecem atenção. No campo da ficção com ambições comerciais, o filão mais explorado tem sido o das cinebiografias de grandes nomes da canção popular como Cazuza, Zezé di Camargo e Luciano, Noel Rosa, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, Renato Russo e Tim Maia. À margem, é possível observar o interesse de jovens realizadores por filmes musicais produzidos em contexto de baixo orçamento, entre os quais citamos O que se move (Caetano Gotardo, 2013), A fuga da Mulher Gorila (Felipe Bragança e Marina Meliande, 2009) e Sinfonia da Necrópole (Juliana Rojas, 2014). O campo mais fecundo nas últimas décadas, contudo, parece ser o dos chamados “documentários musicais”, que proliferaram nos circuitos de festivais, mas com boa inserção também nas salas comerciais e na TV: filmes sobre compositores, intérpretes, gêneros, movimentos e manifestações das mais variadas tendências da música brasileira, aos quais daremos atenção em postagens e artigos futuros.

Guilherme Maia

Bibliografia

CARVALHO, M. A canção popular na História do cinema brasileiro. Tese (Doutorado em Multimeios) – UNICAMP, Campinas, 2009.

COSTA, F. M. Início do cinema sonoro: a relação com a música popular no Brasil e em outros países. In MACHADO, R. et alli, Estudos de Cinema Socine. São Paulo: Annablume, 2006.

GONZAGA, A.; SALLES GOMES, P. E. 70 anos de cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1966.

RAMOS, L. A. e HEFFNER, H. Cinédia (verbete). In: RAMOS, F e MIRANDA, L. F. (orgs). Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: Editora Senac, 2000.

SEVERIANO, J. 2008. Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. São Paulo: Editora 34, 2008.

TINHORÃO, J. R. Música popular: teatro e cinema. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1972

XAVIER, I. 2006. Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo: Paz e Terra.

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