Na América Latina, o México foi o país em que o cinema viveu a Edad de Oro de mais alto quilate e o filme musical foi uma peça-chave nesse processo. No site colaborativo Internet Movie Database (IMDB), estão registrados 232 filmes classificados como musicais produzidos no México entre 1930 e 1960 (131 na Argentina e 96 no Brasil). Duas espécies de musicais tiveram grande destaque no mercado mexicano e latino-americano neste período: as comedias rancheras e os filmes cabareteros. Nestes filmes, “música e performance foram incorporados em espaços narrativos específicos [a hacienda e os cabarets] que serviram de alegorias utópicas e/ou distópicas de nacionalidade” (LÓPEZ, 2013, p. 136).

 Examinando um contexto nacional fortemente contingenciado ora por resistência ora por sujeição ao fluxo de interesses políticos e econômicos dos EUA, o cinema musical mexicano dos anos 1940-50 foi, entre muitas outras coisas, reflexo e agente de um processo construção de símbolos oficiais de “mexicanidade”, levando às telas gêneros de canção popular já institucionalizados pelo meio radiofônico como signos de musicalidade mexicana – o mariachi, a ranchera e o bolero mexicano[1]. De um modo geral, os dois primeiros contribuem para o estabelecimento do ethos rural, comunitário e utópico das comédias rancheras. Já os boleros, mais presentes nos filmes cabareteros, operam em negociação com outros gêneros caribenhos, argentinos e mesmo brasileiros, no contexto distópico de casas noturnas frequentadas por prostitutas e cafetões, que López vê como veículo de articulação de subjetividades marginalizadas em um México urbano, multicultural e em processo de modernização (LÓPEZ, 2013).

 Em direção contrária ao veio cômico-carnavalesco dos musicais cinematográficos brasileiros do mesmo período, a natureza dominante dos musicais mexicanos, até mesmo nas comédias, está bem mais próxima de um “cinema de lágrimas”, como graciosamente definiu Sílvia Oroz (2000). Da mesma forma como os títulos dos musicais brasileiros são fortes indícios da presença do samba e do carnaval, os dos filmes cabareteros remetem ao sabor acridoce dos boleros. La mujer del puerto (Arcady Boytler, 1934), Deseada (Roberto Gavaldón, 1951), Señora Tentación (José Días Morales, 1948), Besame mucho (Eduardo Ugarte, 1945), Enamorada (Emilio Fernández, 1946), La malquerida (Emilio Fernández, 1949), Perdida (Fernando A. Rivero, 1950), Pecadora (José Diaz Morales, Carlos Schlieper, 1947), La bien pagada (Alberto Gout, 1948), Victimas del pecado (Emilio Fernández, 1951), Mujeres sacrificadas (Alberto Gout, 1952), La hermana impura (Miguel Morayta, 1948) e Revancha (Alberto Gout, 1948) são, entre muitos outros, títulos que evidenciam um vocação inequívoca para melodrama, herdeira, em grande parte, da difusão das radionovelas cubanas na América hispanohablante.

 Nos anos 1960, mesmo com a indústria cinematográfica mexicana enfraquecida (PARANAGUÁ, 1984; KING, 2000), o IMDB registra 123 filmes musicais, entre produções e coproduções. Na década seguinte, entretanto, no mesmo passo em que a produção de filmes de um modo geral, o fluxo de musicais diminui progressivamente de intensidade e chegamos aos 15 primeiros anos do século XXI, com apenas 10 musicais cinematográficos de longa-metragem registrados no IMDB. Pode parecer pouco, mas, considerando as dificuldades enfrentadas por um cinema que vive em permanente luta pelo direito de existência em um lugar que fica “longe de Deus e perto de Hollywood” (PARANAGUÁ, 1984), pode-se dizer que o filme musical continua a ter um lugar importante na cinematografia mexicana e é objetivo dessa nossa pesquisa examinar mais de perto esses filmes, expandindo o olhar também para o campo dos documentários.

Guilherme Maia e Natalia Rueda

 

[1] O termo bolero, em música, designa tanto manifestações de canto e dança populares espanholas do século XVIII com influência árabe, quanto gênero de música de concerto (o Bolero de Ravel, por exemplo) e um gênero de canção popular oriundo de Cuba. Foi, contudo, o bolero reinventado e mexicanizado por Augustín Lara, o gênero que se disseminou por toda a América Latina e pelo mundo.

Referências

 

KING, J. Magic reels: a History of cinema in Latin America. Londres/Nova Iorque: Verso, 2000.

LÓPEZ, A. México. In CREEKMUR, C e MOKDAD, L. (orgs.). The international film musical. Edimburgo: Edimburgh University Press, 2012.

OROZ, Silvia. Melodrama: o cinema de lágrimas da América Latina. Funarte, 1999.

PARANAGUÁ, P. Cinema na América Latina: longe de Deus e perto de Hollywood. São Paulo: L&PM, 1984.