A história do cinema nicaraguense começa com a chegada do cinematógrafo no país em 1899, o que fez com que a invenção dos irmãos Lumière invadisse os teatros da capital e atraísse a classe alta de Manágua para assistir curtos minutos de projeção da vida cotidiana. Se não fosse este episódio no final do século XIX, não seria descartável a possibilidade da Nicarágua só entrar em contato com o cinema a partir de 1912, quando os fuzileiros navais norte-americanos ocuparam o país e as atividades militares em Manágua foram registradas pelas câmeras do Departamento de Comunicação e  Cinematógrafo dos Estados Unidos.

Em outras palavras, poderia haver um atraso temporal no ramo cinematográfico nicaraguense, e, acontecimentos como a instalação da primeira sala de cinema no Salón de Cine San Jacinto em 1909 e o surgimento da Academia de Cine de Nicarágua (onde eram ensinadas técnicas de atuação e maquiagem) em 1926 ocorreriam bem mais tarde. Obviamente que nunca dá para prever com exatidão o que aconteceria se a história tomasse um rumo diferente, porém, a reflexão ligeira ainda é válida (CUADRA, 2012).

Com o advento do cinema sonoro em 1930, o cinema começou a ganhar mais popularidade. As salas adaptadas para acomodar os músicos que acompanhavam os filmes silenciosos ao vivo não suportavam a quantidade de espectadores ansiosos para conhecer a novidade. Segundo Cuadra (2012), foi necessário construir mais salas e acrescentar uma programação noturna para suprir as demandas de público. Além disso, o valor dos bilhetes foi barateado, dessa vez, agregando a classe trabalhadora, que também pôde usufruir desse tipo de entretenimento, antes exclusivo para as classes mais altas. Não obstante, essa transição não contemplou a todos, já que os profissionais da música que sempre tocaram durante os filmes, perderam seus empregos. Em 1932, uma série de marchas é liderada pelos filarmônicos em protesto  contra o cinema sonoro.

Em 1948, a primeira empresa de produção cinematográfica é criada no país, Nica Filmes. Por pertencer ao ditador Anastasio Somoza García, já podemos deduzir que a sua atividade girava em torno do governo, representando a dinastia instalada no país desde 1934 e a família Somoza de maneira vangloriosa. A propaganda política se deu não somente pela Nica Filmes, mas também, pela primeira produtora de cinema da Nicarágua, PRODUCINE, fundada na década de 1970 e de posse compartilhada entre Somoza e um empresário mexicano. Como foi exposto, todo o aparato cinematográfico e audiovisual foi centralizado pelo Somozismo. Na televisão, no ar desde os anos 1970, predominava o conteúdo estrangeiro, sobretudo estadunidense.

Até a derrubada da dinastia Somoza pela revolução Sandinista em julho de 1979, o cinema no país não possuía uma identidade que representasse o povo nicaraguense. Este, com o progresso da Revolução, começou a ter voz política e, muitos ativistas trabalhadores e camponeses, adquiriram habilidades necessárias para produzir filmes sobre a própria realidade. É verdade que os primeiros filmes sobre a Revolução foram feitos, principalmente, por cineastas estrangeiros e pela elite intelectual da Nicarágua, contudo, sob as ruínas do Somocismo, finalmente, um cinema nacional nicaraguense foi construído.

O triunfo revolucionário foi além da criação do Instituto Nicaraguense de Cine (INCINE) e da Cinemateca Nacional. A década de 1980 foi caracterizada como a “época de ouro” do cinema nicaraguense, quando muitos longas-metragens foram reconhecidos em festivais internacionais, a maior parte deles, produções estrangeiras com atores do país como El señor presidente (1983), Walker (1987) e Alsino y El Cóndor (1982), este último dirigido pelo conhecido cineasta chileno, Miguel Littín, indicado ao Oscar como melhor filme estrangeiro. Igualmente se destacam Sandino (1990) co-produção entre Chile, Cuba, Nicarágua e México também dirigido por Littín; Mujeres de la Frontera (1987); Manuel (1984); El espectro de la Guerra (1989), um dos dois musicais salvadorenhos os quais possuem referência no IMDB; e o curta realizado pelo nicaraguense Frank Pineda, El Hombre de Una Sola Nota (1988).

Desde a década de noventa, questões sociais contemporâneas como violência doméstica, AIDS, gravidez na adolescência, aborto, diversidade cultural, abuso sexual e sexualidade, passaram a ser abordadas nas produções nicaraguenses. São registros desse novo período: Historia de Amor com Final Anunciado (2007); o surrealista Blanco Organdi (1998), o documentário musical Don’t Cost Nothin’ to Dream (2011) e o premiado El Ladroncito (2008), co-produção entre Nicarágua e Estados Unidos; La Yuma (2009).

Cecília Mélo

Referências:

CUADRA, Ricardo. La Hazaña de Hacer Cine en Nicaragua. Nicanoticias. 2 set.

2012. Seção Nicarágua. Disponível em:

http://www.nicanoticias.com/2012/09/02/la-hazana-de-hacer-cine-en-nicaragua/.

Acesso em: 10 mai. 2015.

HESS, J. Nicarágua and El Salvador: Origins of Revolutionary National Cinemas. In:

MARTIN, Michael T. et al. New Latin American Cinema. Detroit, Michigan, Estados

Unidos da América; Wayne State University Press, 1997. P. 191-208.

MORALES, Karly Gaitán. Cronología del Cine en Nicarágua. La Prensa. Manágua.

19 jul. 2008. Seção La Prensa Literaria. Disponível em:

http://archivo.laprensa.com.ni/archivo/2008/julio/19/suplementos/prensaliteraria/c

ine/cine-20080718-1.shtml. Acesso em: 11 mai. 2015.

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