Diferentemente do México, Argentina e Brasil, onde a realização de filmes musicais atingiu considerável vigor, um levantamento preliminar da historiografia do cinema musical peruano revela que o gênero encontra-se diluído em meio à própria irregularidade dos ciclos cinematográficos do país. No site colaborativo Internet Movie Data base (IMDB), estão registrados 11 filmes referenciados ao termo “musical”, produzidos no Peru, entre os anos de 1938 e 2013: 4 filmes ficcionais de longa metragem, Gallo de mi galpón (1938), Un gallo con espolones (1964), Mi secretaria está loca, loca, loca (1967), Suenos de Gloria (2013); 3 animações, Caramelito (2011), Paroniria (2013) e Copycat (2013); 3 documentários, How to Get a 10ft Virgin Through an 8ft Gate (2005), Periferias Interiores (2009) e Sigo siendo (2013); e 1 série de TV, Besos robados (2004).

A observação do conjunto de musicais peruanos destacados pelo IMDB permite a constatação de uma produção marcada pela intermitência, tanto que os primeiros registros relacionados aos musicais ficcionais surgem com a fundação da companhia Amauta filmes (1937-1940), que produziu 14 filmes de longa-metragem, número recorde para um único produtor na história do cinema peruano (FRÍAS, 1996). Nesse período, considera-se que houve um clima de entusiasmo evidenciado pela produção de filmes permeados por códigos associados à rápida identificação, abrangendo temáticas como nacionalismo, populismo, humor criollo e costumbrismo (BEDOYA, 2002). Por sua vez, Labarrére (2009) enfatiza que o período de atuação da companhia, classificado abusivamente como “Edad de Oro” (1937-1940), é referido como um dos mais profícuos do cinema peruano, permeado por “melodramas, comédias ligeiras e filmes musicais que utilizavam atores e temas, geralmente urbanos, emprestados das produções radiofônicas”.

Dentre as produções mais célebres da Amauta filmes, destaca-se o musical Gallo de mi galpón (1938), de Sigifredo Salas que, conforme Frías (1996, p. 277), é recheado com números cômicos e musicais, com destaque para valsas, marineras e tonderos, três dos gêneros de música/dança mais importantes da música peruana.

Segundo Bedoya (2002), nos vinte anos posteriores ao término da Amauta Filmes (década de 1940 até o início da década de 1960), afora a produção documental peruana, mais constante, e algumas produções dos EUA, filmadas no Peru, pouquíssimos filmes nativos foram rodados. Ainda assim, no fim da década de 1950, Labarrére (2009) propõe que, por meio do surgimento dos cineclubes peruanos, promoveu-se uma reação ao referido declínio. Desse período, destaca-se o cineclube de Cuzco (1955), berço de concepção e realização da ficção Kukuli (1961), dirigida por Luis Figueroa, Eulogio Nishiyama e Cesar Villanueva, o primeiro longa-metragem em língua quíchua que, embora não seja elencado como musical (pelo IMDB), contém cenas que registram músicas, danças, procissões e aspectos míticos referidos ao indigenismo andino”.

Na década de 1960, Middents (2009) sinaliza para um breve momento de expansão do cinema peruano, resultante da promulgação da Lei de Cinema de 1962, que possibilitou, dentre outros fatores, o surgimento de coproduções internacionais filmadas no Peru (realizadas com México e Argentina, entre as décadas de 1960 e 1970). Desse período, destaca-se o musical Mi secretaria está loca, loca, loca (1967), de Alberto Dubois, coproduzido por Argentina e Peru. Segundo Berardi (2006), trata-se de uma comédia direcionada à promoção de viagens turísticas ao Peru, que resultou em um filme repleto de incoerências narrativas, com números musicais inseridos sem maiores justificativas. Todavia, no período compreendido entre o fim da década de 1960 e o início da década de 2000, não há qualquer menção ao gênero musical peruano, conforme evidenciado na pesquisa bibliográfica e na filmografia sugerida pelo IMDB.

Na década de 2000, apesar dos sucessivos desacertos promovidos pela lei de cinema de 1994, Middents (2009) observa uma forte tendência de renovação, ao passo que Zambrana (2010) sugere um momento de crescimento exponencial da filmografia peruana. Nesse contexto, ressurgem referências ao musical peruano com os documentários How to Get a 10ft Virgin Through an 8ft Gate (2005), de Karina Garcia Casanova e Periferias Interiores (2009), de Sergio García Locatelli.

A tendência de expansão, observada por Middents (2009) e Zambrana (2010), pode ser evidenciada no decorrer da década de 2010, com Paroniria (2013) e Copycat (2013), ambos do diretor Mauricio Sanhueza. Com efeito, os musicais de maior importância do período são a animação Caramelito (2011), de Erick Chagua, Suenos de Gloria (2013), de Alex Hidalgo (primeiro filme musical resultante de uma coprodução entre Peru e EUA, inspirado no gênero de música/dança marinera) e o documentário Sigo siendo (2013), de Javier Corcuera, contendo números musicais e entrevistas com músicos peruanos. Notadamente, por meio de pesquisas na internet, descobriu-se que o longa Rocanrol 68 (2013), do diretor Gonzalo Benavente, contém números musicais com importantes bandas de rock peruanas integrados à trama.

Diante do tímido ressurgimento do gênero, no decorrer da década de 2010 e dos poucos títulos referenciados no IMDB, uma pesquisa bibliográfica preliminar sugere que há indícios de musicais peruanos não contabilizados, principalmente no período em que vigorou a Amauta Filmes. Ainda que haja um considerável hiato na produção de musicais peruanos, entre as décadas de 1940 e 2000, um levantamento mais minucioso a jornais e revistas publicados nesse entremeio pode mostrar-se fundamental para revelar as dificuldades enfrentadas por este gênero. Por fim, convém observar que futuras pesquisas dedicadas aos documentários musicais peruanos podem expandir os títulos já existentes.

Rodrigo Garcia e Inara Rosas

Referências

BEDOYA, Ricardo. Nuestro cine: Una historia intermitente. Libros y Artes. 2002; p. 14-17. (Citado em 12 de maio de 2015)

BERARDI, Mario. La vida imaginada. Vida cotidiana y cine argentino 1933-1970.

Buenos Aires: El jilguero, 2006.

FRÍAS, Isaac León, “Peru”, in Barnard, Timothy and Rist, Peter (eds.), South American Cinema: A Critical Filmography, 1915-1994. New York: Garland Pub., 1996, p. 275-292.

LABARRERE, André: Atlas del cine. Madrid: Akal, 2009, p. 584-587.

MIDDENTS, Jeffrey. Writing National Cinema: Film Joumals and Film Culture in Peru. Hanover, NH: Dartmouth College Press and University Press of New England, 2009.

ZAMBRANA, Rosana Díaz, “Imaginarios culturales y fronteras de clase: la veta naturalista en el cine peruano contemporáneo”, in Spicer-Escalante, J.P. e Anderson, Lara (ed.), Au Naturel: (Re)Reading Hispanic Naturalism. Newcastle upon Tyne, Cambridge Scholars Publishing, 2010, p. 315-331.

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Artigos Acadêmicos

  • GILLONE, Ana. Cinema no Peru. Das explícitas narrativas dos anos de chumbo às histórias que constroem a política implícita no cotidiano. – wwww.elacom.fclar.unesp.br
  • LARA, Luiz Reynaldo Chávez. Cinema peruano: una mirada desde el presente. – www.revistahistorik.com
  • JENKAL, Anna Maria. Bibliografía y filmografíaselecta: el cine peruano a partir de 1972 – Ibero_Bibliographien